Inteligência sentimental
Esse é o fim. Segure a respiração e conte até dez. ("Skyfall", Adele)
Eu ganhei meu primeiro computador em 1998, aos treze anos. Por conta do caos do ambiente em que eu cresci e do bullying e da violência constantes que sofria na rua por ser um adolescente visto como “esquisito” e afeminado, eu ficava trancado em casa, passando todo o meu tempo livre no computador.
A internet era algo novo pra mim, e comecei a vasculhar para aprender como ela funcionava. Minha mãe diz que, quando eu era pequeno e ganhava algum brinquedo eletrônico, eu desmontava todinho, via como era por dentro e montava de volta. Para a surpresa de todos, funcionando perfeitamente. Nunca desmontei um computador, mas eu pegava os códigos-fonte dos sites, copiava e colava pra ver como era. Lia linha por linha. E ia mudando as coisas pra ver o que acontecia. Não existia Google na época. Era tudo na garra mesmo e muita pesquisa em fóruns de discussão.
Então, não deve ser nenhuma surpresa pra ninguém que eu trabalhe há mais de 25 anos com desenvolvimento web. Mas é curioso pensar que uma curiosidade que surgiu há quase três décadas definiu os rumos da minha carreira.
Quando comecei a trabalhar, estávamos às vésperas do “bug do milênio”. Os filmes e clipes de música pareciam todos futuristas e modernos, repletos de referências eletrônicas e robóticas. As pessoas falavam pra mim: você tem o trabalho do futuro e vai estar empregado pra sempre. Eu pensava assim também e me dava um certo conforto, mas, como tudo na vida que é importante, eu nunca “took it for granted”.
Nunca parei de estudar nem de me aperfeiçoar. E nunca me achei o melhor no que faço, pois sabia que seria uma falácia que me emburreceria e me impediria de continuar aprendendo, além de me fazer alguém bem arrogante.
Acontece que, nos últimos anos, a Inteligência Artificial tem dominado muitas áreas, em especial a minha, que é puramente tecnológica. Isso veio com um inquietamento e uma ansiedade constantes. A tal promessa de trabalho eterno tinha se tornado obsoleta mais rápida do que eu imaginava. Eu poderia ser substituído num estalar de dedos e, o mais assustador, eu não sei fazer absolutamente nada que possa me dar um salário ou se tornar uma nova carreira (nem vou colocar aqui a escrita porque sabemos como esse mercado funciona).
No final de 2021, me juntei a uma agência digital dos EUA. Um grupo pequeno e diverso, mas de grande talento e humanidade, trabalhando em projetos que têm impacto positivo no mundo. Essa foi uma escolha feita a dedo por mim, pois eu tinha estabelecido a meta de encerrar minha carreira em um lugar onde eu pudesse fazer a diferença como programador. E esse encerramento poderia durar o tempo que fosse, mas não imaginei que pudesse ser tão rápido.
É estranho falar no passado sobre algo que ainda é presente. IA existe com tudo, mas ainda não fui substituído. Ainda… Embora eu sempre esteja esperando um convite ou uma mensagem no Slack dizendo, “Tem um minutinho pra conversar?”, e, boom, esse é o fim. Catastrofizar é uma das piores partes da ruminação, segundo diversos estudiosos de saúde mental e psicólogos (inclusive o meu), mas sempre me ajudou a me preparar para os piores cenários possíveis, embora eu não tenha nenhum Plano B caso a profecia IA versus humanos se concretize pra mim.
Eu tenho aprendido IA, pois é loucura negar a existência de um futuro que já é tão presente. Imagine se eu tivesse resistido lá atrás? Jamais teria aberto o código-fonte de um site para aprender como era. Embora eu ainda não use efetivamente no meu dia a dia de trabalho, a não ser pra responder perguntas pontuais e simples, sei que é o caminho natural da minha carreira, se eu quiser continuar tendo uma.
Atualmente, estou finalizando um dos maiores projetos em que já trabalhei. A minha relação com esse, em especial, tem sido diferente. Eu sempre coloquei todo o meu coração e conhecimento no que faço, mas esse ganhou um aspecto de artist engineering que não sei explicar. Existe um sentimento enorme dentro de mim, quase palpável, de que esse será o último grande projeto que farei sem usar IA. É a minha despedida.
Como sempre pensei na minha mortalidade mais do que a maioria, eu também sempre entendi a minha irrelevância. Mas sabia que eu não queria estar aqui no mundo como mais uma pessoa consumindo sem dar nada em troca. E, como não sei quando o Sol vai se pôr na minha carreira e quando a IA vai substituir todos nós, estou finalizando um projeto como se fosse o último da minha jornada. Pode soar bobo, eu sei. É “apenas” um site que talvez nem exista mais daqui a dez anos.
Mas vou poder acessá-lo e guardá-lo como um token de uma carreira que não apenas transformou minha vida, mas também me permitiu impactar pessoas, ir a lugares que nunca imaginei, conhecer seres humanos incríveis e viver a realidade que tenho hoje. Vou poder olhar pra trás com orgulho do que construí e celebrar que aquele menino que começou a fazer sites porque tinha um medo absurdo do mundo lá fora se tornou um homem bem-sucedido e capaz de realizar tantos sonhos que pareciam impossíveis. Isso, a Inteligência Artificial jamais vai tirar de mim, porque aqui tem alguém de carne e osso, com um coração cheio de emoções e histórias reais pra contar.
